Imagino eu, que durante minhas breves passagens pela linha azul do metrô de São Paulo, Deus me espia pelo reflexo da janela de vultos. Eu faço o mesmo graças à minha personalidade reservada. Não sou tímida, na verdade não gosto de dar o privilégio do meu interesse tão facilmente. Isso me torna culpada ou simplesmente particular demais?
Já não sei porque Deus faz o mesmo comigo. Talvez ele também não queria se revelar à mim, que estou sendo analisada à uma distância considerável. Ser Deus num mundo como o de hoje não é fácil. Saber se camuflar toma tempo e paciência, porque não é o mesmo que se mascarar. Deus mantém suas características que o tornam dono do universo. Porém, espiando da mesma forma, utilizando outro reflexo, ele se revela triste, velho, retira o celular da mochila e tenta verificar as notificações. A foto de seu cachorrinho está como protetor de tela, mas o fundo de tela é o simples papel de parede que veio junto quando ele o comprou. Nenhuma notificação. O planeta terra inteiro para cuidar e nenhuma urgência, nenhuma. Aquilo me parte o coração e eu paro de espiá-lo. Passo a me encarar no reflexo e logo minhas lágrimas se acumulam.
Eu vim parar nesse mundo sem poder derramar uma lágrima com a probabilidade de precisar 100% de um lenço para suar o nariz. Talvez ele tivesse brincando com a minha cara. Me fazendo pagar mico, mas lá continuou ele, pelo mesmo reflexo tentando ouvir música no fone de ouvido. Aquela sensação de inutilidade me inundou o peito. Aquela sensação que eu sentira poucas vezes na vida, que me deixava alegre e ao mesmo triste inundou meu peito. Logo pensei comigo que daqui alguns anos eu estaria no mesmo lugar, envelhecida pelo mundo, inocentada por outro alguém, impossibilitada pelo meu metabolismo, lenta pelo acúmulo de paciência, de experiência e insensatez.
Deixei para trás o dia em que Deus me revelou meu futuro. Eu precisei me livrar da sensação e me considerar aquele espírito jovem que ia em direção das aulas de desenho de modo rápido. Mas nem as ruas boêmias da Vila Mariana me fizeram esquecer aquele episódio perturbador, no qual eu anseio reencontrar, mas tenho medo. Qual seria a próxima revelação?
Desculpem pelo rascunho rápido.


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